31 de maio de 2012

Rádio Nacional de Brasília completa 54 Anos

Era 31 de maio de 1958, quando o presidente Juscelino Kubitschek subiu em um palanque para proferir o seu discurso de inauguração da Rádio Nacional de Brasília, em um barracão improvisado na quadra 507 Sul.  
Os candangos que trabalhavam na construção da Capital Federal deram uma pausa nas obras para ouvir o presidente e participarem da festa.
Das vertentes amazônicas às coxilhas gaúchas, e dos contrafortes andinos ao litoral atlântico, Brasília fará ouvir a sua voz, a partir deste momento, graças aos possantes transmissores da Rádio Nacional, que ora inauguramos. Milhões de lares disseminados nos recônditos recessos do nosso território participarão, assim, de ora em diante, da presença física e da convivência de Brasília, e reconhecerão a fisionomia familiar desta metrópole. Na mensagem diária da tenacidade e do arrôjo dos que estão travando esta grande batalha patriótica no Planalto Central, brasileiros de todos os quadrantes recolherão o eco das emissões cotidianas da Rádio Nacional de Brasília, como um apêlo ao seu patriotismo e ao seu entusiasmo cívico. (Juscelino Kubitschek, 31/05/1958)
Após o discurso, no final da tarde, a festa continuou com o show de artistas como Dóris Monteiro, Lana Bittencourt, essa havia emplacado a música Little Darlin em 1958, Ângela Maria, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Grande Otelo, Pixinguinha, João Dias, Cauby Peixoto, Carlos Galhardo e os apresentadores da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.
Caminhão leva candangos para canteiros de obras de Brasília.  Foto: Mário Fontenelle/Arquivo Museu Vivo da Memória Candango.
Quando a Rádio Nacional foi inaugurada, Brasília ainda era um imenso canteiro de obras, e através dela JK esperava prestar contas da construção da cidade, muito criticada na época. 
Além de divulgar a construção da capital, a primeira emissora a falar de Brasília para o Brasil estabelecia o contato dos cnadangos que tinham ido participar da concretização do projeto de Lucio Costa e Oscar Niemeyer com os seus familiares em diferentes regiões do país, em especial no Nordeste.
A vida cultural e o lazer dos pioneiros na futura capital federal, eram os serviços de alto-falantes na Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, entre eles o Voz de Brasília, que funcionou até 1961. O nome é uma reminiscência ao programa Voz do Brasil. 
Através do Voz de Brasília, Carlos e Cleusa Senna anunciavam a chegada dos candangos para trabalhar nas obras e as vagas disponíveis nos diferentes setores da construção da nova capital. Além dos alto-falantes existia os circos do coronel Jorginho Suaid, do Sabuginho, do Cacareco e do Dino Santana. 
Com a Rádio Nacional, Brasília passou a ouvir e falar para o Brasil. Entre 1958 e 1961 dois diretores passaram pela emissora, Edmundo Vale, que ajudou na criação da Rádio e Fernando Jacques, que já havia passado pela Nacional do Rio de Janeiro.
Zair Cançado foi pioneiro em Brasília e na  Nacional, vindo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, logo no inicio das atividades da emissora apresentou o programa  Discoteca do Ouvinte, das 4 ás 5 da tarde. Se tornou o primeiro disc-jóquei (termo utilizado para descrever a figura do locutor de rádio que anunciava e tocava as músicas dos discos), apresentou ainda o programa Falando para o Brasil, aos sábados, com uma hora de duração.
Outro nome que trabalhou na Rádio Nacional logo no inicio foi o médico Edson Porto.  Edson chegou em Brasília no ano de 1956, em 1958 passou a fazer parte da orquestra da emissora, tocando violino e bandolim, e apresentou um programa com dicas sobre saúde e alimentação.
Capa do Jornal Diário da Noite
A primeira emissora implantada  em Brasília nasce com o desafio de transmitir a Copa do Mundo de 1958, dentre os locutores que transmitiram a copa estava Oswaldo Moreira. Enquanto na Suécia a seleção conquistava o primeiro título mundial, com Garrincha, Vavá, Pelé e Zagalo, os brasileiros estavam sintonizados na emissora. Dentre os ouvintes estava o presidente Juscelino Kubitschek que ajudava a fazer a audiência.
 Em 1959 a programação da Nacional estava estruturada em transmissões de noticias sobre a construção de Brasília, programação musical, radioteatro e prestação de serviço. Nesse ano estreou o  O Dia Começa com Música, apresentado por Meira Filho, durante 15 anos o programa foi sucesso no horário das 5 ás   às 9 da manhã.  
Meira Filho, locutor da Rádio Nacional de Brasília
O programa se destacava na prestação de serviço para os candangos e as famílias que havia ficado em sua terra natal. Meira chegou em Brasília convidado por Juscelino Kubitschek para conhecer a contrução da nova capital e ficou. Na cidade se firmou como um dos maiores nomes da radiofonia brasiliense. Meira apresentou ainda, aos sábados das 2 da tarde ás 8 da noite, o programa de auditório que leva seu nome, o Programa do Meira.
Em 1960, com a inauguração de Brasília, a Rádio Nacional começou a funcionar no prédio da 701 Sul, no Setor de Rádio e TV e passa a formar rede com a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. 
Em 1961 Mascarenhas de Moraes é contratado pela Rádio Nacional para ocupar o cargo de operador, antes já havia se apresentado como calouro nos programas de auditório que na época faziam sucesso. Mascarenhas passa por todas departamento artístico da Rádio Nacional e se torna locutor. De Meira Filho, com quem começou a trabalhar como operador do Programa do Meira, recebeu o codinome de embaixador de Goiás, estado onde nasceu.
O cantor Fernando Lopes e o apresentador Mascarenhas de Moraes. Pioneiros em Brasília e na rádio.Foto: Marcello Casal Jr/ABr
O palco da Nacional também revelou talentos candangos. Assim como a Rádio Nacional do Rio, a emissora tinha um elenco contratado, para apresentações musicais e radionovelas. Os primeiros cantores contratados foram Glória Maria e Fernando Lopes, nome dado a Eduardo Gomes que ao integrar o cast da emissora passou a utilizar uma identidade mexicana, em função das suas apresentações musicais em espanhol, na hora de falar para dar veracidade a sua nova identidade tinha que usar uma espécie de portunhol.
Já nos primeiros anos, a Rádio Nacional teve que enfrentar o desafio de fazer jornalismo público em tempo de governo militar. Ainda em 1961, a emissora chegou a fazer parte da rede da legalidade, transmitindo discursos do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, em favor de João Goulart. Com a instauração do Regime Militar em 1964, a programação da emissora fica sob a censura dos militares que ditava o que podia ou não ser veiculado.
Em 1964 Clemente Drago, depois de passar pelos programas de auditório, é contratado pela Rádio como locutor reserva, aprende noticiário, comerciais, radioteatro e começa a apresentar o programa Música e Cinema,depois de dois anos é transferido para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por seis anos. De volta a Brasília, em 1878 começa a apresentar a primeira meia hora da Voz do Brasil, e assim a fez por 20 anos.  Deixou a emissora em 2008, mas sua voz marcante continua sendo veiculada na Rádio em muitas das vinhetas que gravou.  
Ouça a jingle "Minha Voz" gravada por  Clemente Drago no final da década de 70, o jingle traduz o sentimento da Rádio Nacional de Brasília com os ouvintes.
Nessa época, entre vários outros, estavam integrado ao quadro de funcionários da emissora, Gilberto Amaral, Alípio Monteiro, Adilso Salas, Roberto Marcio, Rui Carneiro, Eduardo Fajardo e Gilvan Chaves.
Apresentador da Rádio Nacional de Brasília (AM), Gilvan Chaves, em show promovido pela Rádio Nacional de Brasília (AM), em 1982, no Estádio Serejão
Com música e informação, o cantor e apresentador Gilvan Chaves fez parte da equipe que inovou a Rádio Nacional de Brasília na década de 60. O Eu de cá, Você de lá, um dos programas apresentados por Gilvan Chaves, continua no ar. Agora é apresentador pelo locutor Luiz Alberto, que assumiu o programa em 1985 após a morte de Gilvan Chaves. Luiz Alberto foi contratado pela Rádio Nacional em 1980 como assistente de produção e na ausência de Gilvan ele sempre fazia a apresentação do programa. Gilvan Chaves apresentou ainda o Programa Especial levado ao ar no final das manhãs de domingo, nos anos 70. Além de locutor Gilvan chegou a gravar LP´s com músicas como, Meu País, Casamento Apresseguido, Riqueza do Pescador, Prece ao Vento, entre outras.

Ouça a chamada do Programa Especial apresentado por Gilvan Chaves na Rádio Nacional no final das manhãs de domingo, nos anos 70. Na  edição em destaque a voz de Nelson Gonçalves que participaria do programa. 
Em 15 de dezembro de 1975, pelo artigo primeiro da Lei n. 6.301 foi criada a Radiobrás, que nascia com a missão de implantar e operar as emissoras e os serviços de radiodifusão do governo federal, e dentro da política de Segurança Nacional, do Regime Militar, estabelecer a integração nacional. Em 1976 a Rádio Nacional é integrada a Radibrás e sob a responsabilidade da estatal, em 1977, durante a noite passou a ecoar de Norte a Sul do país, acontece que durante o dia transmitia em uma frequência de 50 kw de potência e no período noturno em 600 kw.
No final da década de 1970 e inicio dos anos de 1980, ainda sob o regime de exceção a programação da Rádio Nacional de Brasília passa por um processo de segmentação, o entretenimento baseado nos concursos de calouros, grandes shows e programas de auditório aos poucos vão sendo  deixados de lado. A programação  musical se torna plural abrangendo desde a música sertaneja ao rock´n roll que emergia na Capital Federal.
Com o objetivo de atender diferentes públicos e as diferentes camadas da sociedade surge os programas Grande Parada Nacional, Viva Maria e Encontro com a Tia Heleninha. 
O Programa Grande Parada Nacional começou a ser apresentado na década de 70 e percorreu os anos 80 sob o comando de Edson Vitorino destacando as músicas que eram sucesso em todo o país. Durante o programa, o locutor conversava com programadores musicais das emissoras de todo o país, eles indicavam o que erasucesso na sua emissora, participavam ainda alguns programadores do exterior.     

Ouça a vinheta de abertura do programa Grande Parada Nacional veiculada na Rádio Nacional de Brasília nos anos 80. 
Mara Régia di Perna, locutora do programa Viva Maria, 1982
Em 1981 a locutora e jornalista Mara Régia di Perna colocou no ar o programa Viva Maria, considerado pioneiro nas discussões de gênero no Brasil. Durante a Constituinte de 1988, o  Viva Maria esteve amplamente integrado ao movimento de mulheres  no Congresso Nacional. Censurado em 1990 o programa saiu do ar, retomou em 2004 na forma de programete e continua sendo um espaço fundamental na defesa dos direito das mulheres.
Conheça a trajetória do programa Viva Maria através da leitura do artigo Viva Maria - o pionerismo nas discussões de gênero e o resgate das conquistas das mulheres.         
Vinheta de abertura do programa "Viva Maria" de 12 de fevereiro de 1998. Em destaque a morte do maestro Radamés Gnattali.  
Na década de 80 outro público visado pela Nacional de Brasília, com a criação do programa Encontro com a Tia Heleninha, foi o infantil. Apresentado pela locutora Helena Ardito Bortone, a Tia Heleninha como ficou conhecida entre os ouvintes. O programa Encontro com a Tia Heleninha buscava estimular a imaginação das crianças através da apresentação de músicas infantis, contação de histórias e apresentação de quadros de caráter educativo.
Heleninha Bortone fez história a frente do programa Encontro com a Tia Heleninha, na década de 80.
       A frente do programa a Heleninha adaptou grandes clássicos da literatura universal para radioteatro, como Pollyanna e Pollyana Moça, de Eleanor Porter, da literatura brasileira, entre elas O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos e criou outras histórias, como a radionovela, Uma Casa para Muitos.                   
Acompanhe trecho do programa "Encontro com a Tia Leninha" veiculado pela Rádio Nacional de Brasília nos anos 80. O programa marcou época e fez história. Essa gravação é apresentada sem a edição, antes do programa ir ao ar, ou seja aparece até mesmo a contagem regressiva da locutora antes de iniciar a gravação. 
Em 1988, com a fusão da Empresa Brasileira de Noticias, responsável pelas noticias do Poder Judiciário, com a Radiobrás, a Rádio Nacional de Brasília passa por um grande impulso na área de jornalismo. A emissora passa a ser a geradora da Voz do Brasil, considerado pelo Guines Book, o programa mais antigo da América Latina.
Na década de 90, a emissora vive o seu melhor período em audiência. Começam as transmissões via satélite e, na Copa do Mundo de 94, mais de mil emissoras retransmitem os jogos em rede. Em 1997 a Rádio Nacional de Brasília se torna uma das primeiras emissoras do país a implantar o serviço de 0800 para atendimento dos ouvintes. 
Com o lançamento do satélite de comunicação brasileira, o Brasilsat A1 em 1985 e o Brasilsat A2 em 1986, deu-se a possibilidade de se criar um sistema de transmissão de rádio via satélite, em estério com alta qualidade áudio, lançado em 1989 pela Embratel durante o Congresso da Associação Brasileira de emissoras de Rádio e Televisão (Abert).
A Rádio Nacional de Brasília passa usar o novo serviço da Embratel, para transmissão em especial do Jornal Nacional, com cerca de 400 emissoras em cadeia. Em 1988, o programa contava com duas edições diárias transmitidas ás 7h e à meia noite.
O século XXI começa na Rádio Nacional de Brasília com importantes mudanças, em 2001 sua sede é transferida para 702/ 703 Norte, no Plano Piloto, Brasília - DF.
Em 2004 a emissora começa a implantar um novo modelo de radiodifusão pública, com uma nova linha editorial, voltando seu conteúdo para o interesse do cidadão. No ano seguinte as mudanças ocorrem na grade de programação, o Jornal Nacional passa a ser transmitido em novo horário, e são lançados novos programas como Cotidiano e Espaço Arte. O jornalismo passa a ter participação mais efetiva na programação.
O conteúdo jornalístico da emissora volta a passar por transformações em 2006, as transmissões das jornadas esportivas são suspensas. Entra no ar o programa Notícias da Manhã, transmitido de 6h às 8h da manhã,  substituindo o Jornal Nacional,  e que em 2009 dar lugar ao Repórter Brasil. Este jornal é elaborado também com a equipe multimídia de jornalismo.
Em 2007 a Rádio Nacional estreia um programa de agricultura, o Brasil Rural, que inicialmente ia ao ar nas manhãs de sábado e domingo, atualmente o programa é veiculado todos os dias. A programação de final de semana volta a ser transmitida ao vivo, mantendo gravações apenas de produções especiais ou de parcerias.  A interação com as demais emissoras Nacional aumenta, e programas produzidos pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro são transmitidos também pela Nacional de Brasília. Ela também intensifica o compartilhamento de entrevistas com a Nacional da Amazônia.
Em 2008, ao completar 50 anos a Rádio Nacional volta a passar por transformação, dessa vez a Radiobrás, órgão do governo Federal criado durante o Regime Militar para gerenciar as emissoras públicas é incorporada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). As comemorações de aniversário é marcada pela criação de um hotsit que conta parte da história da Nacional de Brasília e por uma festa em homenagem aos pioneiros.
Já em abril de 2009 começou a ser transmitido o programa Cidade 980, com noticiário sobre o DF e o entorno, o programa é produzido por uma equipe de repórteres dedicados a investigar as principais questões do dia-a-dia do brasiliense, como trânsito, moradia, segurança, saúde e educação.
     Ao longo de 54 anos, a Rádio Nacional de Brasília acompanha o crescimento da cidade, dar voz e espaço aos músicos locais, cobriu mudanças de governos, período militar, redemocratização, constituinte e manifestações populares. E assim integra o Brasil com música e informação.      
Na abertura do programa Tarde Nacional de 31 de maio de 2012, o locutor  Luciano Barroso apresentou um editorial sobre comemorações de 54 anos da Rádio Nacional de Brasilia.

8 comentários:

Beatriz Evaristo disse...

Parabéns pelo resgate da história da Rádio Nacional AM de Brasília!

Shirleide Barbosa disse...

Parabéns, Claudio! Muito boa essa coletânea histórica da Nacional AM de Brasília... só aumenta o meu orgulho de fazer parte dessa história.
Parabéns Nacional AM de Brasília!!! Que você possa continuar exercendo sua missão de informar os cidadãos brasileiros por muitos e muitos anos!!!

Juliana disse...

Salve Cláudio! Belo registro sobre a Rádio Nacional de Brasília.

abs
Juliana

Vinicius Claudio disse...

Parabéns pela matéria. Foi ótimo relembrar a voz da Tia Leninha, principalmente na minha infância quando assistia ao programa dela na TV Nacional, nos anos 80.

Marcione Barreira disse...

Não conhecia o blog, ao ler me emocionei. Relembrando os velhos tempos da minha infância em Tocantins, sinto vontade de voltar ao passado e viver tudo novamente.

Tamires Deolin disse...

Olá eu gostaria de saber se você tem as vinhetas de abertura do Rádio Rancho Alegre, abertura do programa do Mazzaropi ...?

Cláudio Paixão disse...

Olá Tamires Deolin! Infelizmente não tenho a vinheta de abertura do programa Rancho Alegre, levado ao ar inicialmente em 1946 pela Rádio Tupi.

Flavio disse...

Ola, gostaria de saber o nome da música que abre o programa do apresentador Mascarenhas de Moraes, saudade nacional. Obrigado

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